“Quem trabalha com tecnologia deve zelar para que não se torne também uma máquina”, diz Gabriela Prioli no CONARH 2026
Convidada da Senior Sistemas no evento, comunicadora falou sobre tecnologia e o cuidado para que a eficiência não mate a humanidade
“Qual foi a última vez que sentimos de fato, a sensação de conclusão de algo? Ou, o oposto: a impressão de estar sempre correndo atrás de algo quem nem sabemos o que é, sem nunca alcançar?”. Estes foram os questionamentos que a advogada e apresentadora Gabriela Prioli, uma das vozes brasileiras mais influentes da atualidade, levou ao público como atração convidada da Senior Sistemas nesta quarta-feira no CONARH 2026, o maior evento de Recurso Humanos da América Latina.
Trazendo uma reflexão sobre os limites entre produtividade, tecnologia e humanidade ela costurou referências filosóficas, literárias e científicas para discutir um sintoma que, segundo ela, marca a época atual: o cansaço permanente característico do tempo atual.
Para embasar a reflexão, citou o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han e seu livro Sociedade do Cansaço, no qual o autor contrapõe dois modelos de organização social. O primeiro, descrito a partir da obra de Michel Foucault, é a “sociedade da negatividade” — disciplinar, baseada em normas do que não se pode fazer. O segundo é a “sociedade do sim”, em que tudo parece permitido e as possibilidades são infinitas. Segundo Prioli, é justamente esse excesso de possibilidade que produz a sensação de estar eternamente correndo atrás: sem limites externos, a cobrança passa a vir de dentro. “Somos nossos próprios carrascos”, resumiu, lembrando ainda que as redes sociais reforçam essa dinâmica ao transformar a vida cotidiana em vitrine permanente de comparação e julgamento.
A comunicadora destacou ainda que o senso de urgência é o grande traço desta época: tudo precisa ser para agora, como sugere a própria lógica dos aplicativos de mensagem instantânea, e o ritmo de mudança é tão acelerado que mal se aprende algo novo e já é preciso aprender outra coisa, sob pena de ficar para trás. Citando o livro Rápido e Devagar, do psicólogo e Nobel de Economia Daniel Kahneman, sobre os dois sistemas de funcionamento do cérebro, Prioli relacionou esse cenário a um verdadeiro vício em dopamina — um desequilíbrio entre expectativa e resultado que impede momentos de pausa, essenciais para condensar aprendizados e permitir conversas verdadeiras.
Propósito, autoria e o risco da desumanização pela IA
Um dos eixos centrais da palestra foi a ideia de que o propósito do trabalho não está na inovação em si, mas no senso de autoria: trabalhar é uma forma de materializar a própria existência no mundo, de mostrar que se existe. Para Prioli, a interação constante com a tecnologia ameaça justamente esse senso de autoria, e por isso é preciso cultivar clareza sobre metas pessoais e profissionais, alimentando no dia a dia a consciência de que, independentemente de para quem se trabalha, também se trabalha para si mesmo. Olhar para trás e celebrar as conquistas — reconhecendo a disciplina e a maturidade de encarar tarefas pouco estimulantes — foi apontado como parte desse cuidado.
Ela alertou ainda para o risco das “bolhas” em que vivemos, que não nos fazem evoluir, e para reflexões contemporâneas sobre como corremos o risco de nos tornarmos cada vez fechados em concepções de mundo muito pequenas.
Ao destacar o uso de Inteligência Artificial, Prioli fez um alerta específico: por ser construída a partir daquilo que a humanidade já produziu, a IA funciona como um “espelho voltado para trás” — e corre o risco de esvaziar o excedente criativo humano, aquela capacidade de imaginar mais do que somos capazes de materializar, responsável pelo avanço da própria humanidade. Por isso, defendeu momentos de pausa para refletir, criar e ler, estimulando a imaginação. O risco, segundo ela, é a atrofia dessa capacidade e a entrega, à tecnologia, do domínio sobre aquilo que forma a cultura — já que se trata de sistemas inventados e em que passamos a confiar cegamente, correndo o risco de perder o controle sobre invenções que sempre foram humanas.
Citando Nietzsche “Quem luta com monstros deve cuidar para não se tornar também um monstro. E se você olhar muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.”, Prioli propôs a inversão que dá nome à palestra: quem trabalha com tecnologia, com máquinas, precisa zelar para que, ao fazê-lo, não se torne também uma máquina. A pergunta que fica, segundo ela, é de que maneira cada um se conecta e permanece existindo naquilo que faz todos os dias — criando vínculos que valham a pena, sem virar um robô.
No encerramento, trouxe um trecho da poesia de Fernando Pessoa “O que há em mim é sobretudo cansaço”, citando os três tipos de idealistas, e conclui com uma nota de esperança — algo essencialmente humano. Não ao ser ingênuo diante do mundo ao redor, mas ser capaz de compreendê-lo e de materializar aquilo que é mais íntimo em cada um de nós.
Liderança e tecnologia em destaque
A participação de Gabriela Prioli faz parte de uma série de palestras promovidas no estande da Senior Sistemas, no evento. Além da advogada, estão previstas participações de Borja Castelar e Guga Kuerten à convite da companhia.
Dentre as novidades do ecossistema completo da Senior no CONARH, está a arquitetura baseada no Model Context Protocol (MCP), que permite conectar modelos de inteligência artificial como ChatGPT e Clause aos sistemas de gestão de pessoas. Ainda no portfólio, serão dezenas de lançamentos com IA, além da Folha X e do Ponto X, a nova geração de produtos consolidados da companhia, e o ATS by JobConvo, solução que transforma a aquisição de talentos, e o app único do colaborador Wiipo.
Além de conteúdos técnicos, a Senior conta com Maíra Blasi, especialista em futuro do trabalho, em um debate sobre os impactos da IA no tempo e na carreira; e Borja Castelar, ex-diretor do LinkedIn, que aborda a importância das chamadas human skills na era da inteligência artificial. Já Vetusa Pereira, gerente de Diversidade, Equidade e Inclusão do Grupo Heineken, fala de liderança feminina e transformação do mercado. Enquanto Luana Leite, diretora executiva da PetCamp, participa de uma conversa sobre sua experiência à frente da empresa.
Confira a programação completa da Senior no CONARH 2026



