
Inovação virou palavra fácil no mundo corporativo, usada com a mesma velocidade com que se multiplicaram os “especialistas” sobre o tema. São tantas definições e teorias que saber a qual delas deve ser dada a devida atenção passou a ser uma árdua e seletiva tarefa. Claro, há no mercado profissionais e empresas sérias, que discutem a fundo as questões capazes de fazer com que organizações consigam dar os tão sonhados saltos de criatividade. Um desses profissionais é Charles Bezerra, diretor executivo do GAD’Innovation, consultoria de inovação que se propõe a ajudar empresas a alcançarem a diferenciação no mercado. Ph.D. pelo Illinois Institute of Technology, Charles aplica uma abordagem direta e questionadora, unindo a experiência como executivo de grandes multinacionais à de ter lecionado em universidades brasileiras e no exterior.
Interface – De tão falada, a inovação não sofre as consequências de se tornar o tema da moda?
Charles Bezerra – Sim, a percepção é correta. Fala-se muito em inovação, virou um modismo mesmo. Um assunto tão estratégico, tão importante, caiu no lugar comum. Quem sabe isso seja um dos maiores problemas, pois cria um clima propício para a multiplicação de fórmulas prontas, definições que nem sempre refletem a realidade das empresas. São acadêmicas, mas na prática se perdem.
Interface – Como as empresas conseguem mensurar se o processo de inovação deu certo?
Charles – Quem define o que é inovação é o consumidor e não a empresa. A organização vai traçar objetivos, definir caminhos, contratar consultorias e colocar seus funcionários para quebrarem a cabeça na busca por ideias que possam transformar o negócio. Depois, as ideias inovadoras vão necessitar de tempo e dinheiro para se tornarem realidade. Então, e só então, quando o novo for apresentado ao mercado, quando os consumidores tiverem a opção de adquirir o produto ou serviço, é que será o verdadeiro teste. Se o mercado aceitar, comprar, utilizar, o processo todo deu certo. Caso contrário, nada feito.
Interface – Então, cabe ao mercado definir o futuro de uma inovação?
Charles – Sim, esse papel é do mercado e sempre será. Afinal, não adianta ter uma grande ideia de que ninguém quer comprar ou usar? Alguns teóricos não gostam de falar assim, mas se não gerar resultados financeiros, a inovação não deu certo. Nunca devemos esquecer que as empresas possuem um objetivo que é gerar lucro e esse fim não pode ser perdido de vista em nenhuma hipótese.
Interface – Essa posição não parece taxativa demais?
Charles – Provavelmente, pode até parecer. Mas, tem fundamento. Se não houver resultados financeiros, como a busca pela inovação será fomentada? Em determinados períodos deverá haver investimentos, mas o retorno tem que existir para que o processo possa ser contínuo.
Interface – E quais são os primeiros passos para as organizações que decidem ser inovadoras?
Charles – Perceber essa necessidade já é um passo fundamental, mesmo que isso ocorra, muitas vezes, quando a empresa está apresentando problemas de participação no mercado, perdendo vendas, perdendo marketshare. Quando começam a olhar para si mesmas, percebem que estão ficando para trás, que não se diferenciam mais no mercado. Mesmo que seja, nessa fase, antes tarde do que nunca. Depois vem a etapa de analisar como a empresa funciona e quais condições ela oferece para que sua equipe possa sentir-se à vontade para arriscar algo novo.
Interface – Tem que haver uma cultura de inovação?
Charles – Essa cultura é o que se busca, é o que deve ser criado e incentivado. As ideias inovadoras serão resultado dessa atmosfera favorável às mudanças, em que ninguém se sinta ameaçado por questionar o que já existe ou por pensar em algo totalmente diferente do que foi feito até aquele momento.
Interface – Normalmente, nas empresas se criam feudos em que ninguém pode mexer. Como o funcionário pode sentir-se seguro ao questionar esses hábitos?
Charles – Quem começa um processo no sentido da inovação deve ter consciência que haverá desconfortos, que serão criados conflitos e caberá à direção transmitir segurança para que isso possa ocorrer. Questionar significa voltar ao início, descobrir por que as coisas estão sendo feitas daquela forma ou por que aquele produto existe. As respostas podem ser positivas e fortalecer determinados processos, mas também podem causar reviravoltas. Mas, o mais importante é criar um clima favorável à discussão, ao debate, ao pensar além do dia a dia, das rotinas, do que estamos acostumados a fazer. Assim se cria uma cultura de inovação.